Sobre a insanidade temporária do começo e do fim

•Outubro 25, 2008 • Deixe um comentário

As pessoas ficam completamente malucas em duas ocasiões: em nascimentos e mortes.

Pensando bem, parece tudo muito apropriado. Filosofica e poeticamente falando. No início e no fim.

A única coisa que me incomoda nisso tudo são as pessoas que se aproveitam deste momento de insanidade temporária. Roupas de criança são mais caras que de adulto (usando 4 vezes menos tecido!). Sobre as despesas de funeral, que infelizmente recentemente fiquei mais a par… bem, essas são estupidamente exorbitantes! (E as pessoas pagam o que pedem, sem pestanejar).

Não sei exatamente porque. Última homenagem. Começo com uma boa impressão. Como se isso fosse compensar todo o resto.

Flerte

•Setembro 6, 2008 • Deixe um comentário

Essa semana tive que resolver uns problemas burocráticos na universidade. Tinha que encontrar uma secretaria que não conhecia para entregar uma papelada. Mas acabei meio perdido no prédio.

Andando por lá encontrei um rapaz e uma moça em uma salinha e perguntei pela dita secretaria. A moça se propôs a me acompanhar. Fiquei um pouco surpreso pela gentileza e agradeci. Fomos batendo um papo, começando pelo usual “que tempo, heim?”, para então falar das coisas que fazemos na vida.

A garota era muito bonitinha, mas devia ter uns 10 anos a menos do que eu. E me xavecou não muito discretamente. Primeiro elogiando minha carreira, depois meu nome, depois… Se demorássemos mais um pouco para chegar na sala que buscava, acho que ela me convidaria para um suco, ou algo assim.

Talvez aceitasse, ou talvez não. Mas não seria nada a ver com ter ou não confiança em mim mesmo e na condição de homem fiel. É que estava correndo e com bastante pressa e precisava fazer algumas coisas que não podiam esperar.

Bem, é verdade que eu possuo uma longa tradição de me comportar como um pato. Se por algum motivo misterioso não sou eu a tomar a iniciativa na cara dura (quase nunca), a mulher pode se atirar em mim que eu sempre fico com pudores e dúvidas do tipo “será que não estou viajando? Será que ela está de fato a fim de mim?” Lembro de um dia, há muitos anos atrás, em que três lindas mulheres me convidaram para entrar no carro delas – e, estúpido clichê, era um conversível – e eu besta aleguei algum compromisso, também pretensamente inadiável. Mas eu acho que o que me impede nessas horas não é pudor, é algo mais vergonhoso e recôndito…

De qualquer maneira, são pequenos elogios como este flerte – que foi, aliás, bastante inocente a despeito da franqueza com que aconteceu – que me dão os necessários boosts na minha auto-estima, ao menos de vez em quando.

Voltei, por um breve instante

•Agosto 26, 2008 • Deixe um comentário

Ontem acabei dormindo sozinho, por conta da viagem da namorada.

Fazia meses que isso não acontecia. Desde que voltei daquela cidade, na verdade.

E foi esquisito, mas me lembrei daquele ano em que tive que dormir sozinho – numa cama bem parecida com a atual, por sinal – todos os dias. E, acho que por associação, me peguei sentindo as maiores saudades que tive daquela cidade desde que voltei.

Todas as coisas que passei a amar lá, voltaram de repente. Não como lembranças, porém mais poderosas, na forma de sensações e sentimentos. Vontade de voltar a andar por aquelas calçadas que ficaram tão familiares, os cruzamentos que atravessei centenas de vezes, o supermercado em que já conhecia todos os funcionários, o ar claro com que me acostumei, o céu azul pálido que só tem por lá.

Saudades também das outras coisas, do pub, dos museus e das casas de show, claro. Dos parques também. Mas sobretudo daquelas ruas do meu bairro. Mesmo os ônibus e as linhas que memorizei, a estação de metrô que descia fundo, a pequenina agência do meu banco, a biblioteca local onde ia ver internet, o café em que ia tomar meu mocha, o cemitério silencioso do lado da paróquia, a igreja protestante e a árvore meio caída que a adornava, o canal calmíssimo e belo, a minha rua meio escondidinha, todas as casinhas e suas inúmeras plantas, as folhas amarelas caídas e então recolhidas pelo moço de carrinho. Toda as possibilidades de uma vida recém-começada, mas com maturidade para desfrutá-la.

Eu sabia que iria sentir muita falta disso tudo, mas ontem isso me tomou de sobressalto, como uma experiência concreta, não apenas a lembrança idealizada. Como se eu pudesse ter voltado de fato, por um breve instante, para depois perceber que estava, na verdade, na minha cama brasileira, dormindo só.

Privacidade paradoxalmente perseguida

•Julho 14, 2008 • Deixe um comentário

Chega um momento em que sua vazão escritora encontra obstáculos. Se ao menos fosse por bloqueio, por conta daquela aridez criativa que assola sem piedade, não haveria o que se fazer e seria possível resignar. Mas quando as idéias são impedidas pelo receio do receptor, bem, então é tempo de criar um novo meio, um novo caminho e uma nova ferramenta de comunicação.

O que é público precisa de uma nova mão de privacidade – e ainda que rume inexorável para a celebração coletiva, um alento temporário é bem vindo.

Não quero apagar o que veio antes, jogar tudo fora. Apenas ter alternativas e válvulas de escape extras.

Pois neste espaço virão coisas que não estavam sendo contadas em outras paragens, e clamavam por ouvidos frescos.