Ontem acabei dormindo sozinho, por conta da viagem da namorada.
Fazia meses que isso não acontecia. Desde que voltei daquela cidade, na verdade.
E foi esquisito, mas me lembrei daquele ano em que tive que dormir sozinho – numa cama bem parecida com a atual, por sinal – todos os dias. E, acho que por associação, me peguei sentindo as maiores saudades que tive daquela cidade desde que voltei.
Todas as coisas que passei a amar lá, voltaram de repente. Não como lembranças, porém mais poderosas, na forma de sensações e sentimentos. Vontade de voltar a andar por aquelas calçadas que ficaram tão familiares, os cruzamentos que atravessei centenas de vezes, o supermercado em que já conhecia todos os funcionários, o ar claro com que me acostumei, o céu azul pálido que só tem por lá.
Saudades também das outras coisas, do pub, dos museus e das casas de show, claro. Dos parques também. Mas sobretudo daquelas ruas do meu bairro. Mesmo os ônibus e as linhas que memorizei, a estação de metrô que descia fundo, a pequenina agência do meu banco, a biblioteca local onde ia ver internet, o café em que ia tomar meu mocha, o cemitério silencioso do lado da paróquia, a igreja protestante e a árvore meio caída que a adornava, o canal calmíssimo e belo, a minha rua meio escondidinha, todas as casinhas e suas inúmeras plantas, as folhas amarelas caídas e então recolhidas pelo moço de carrinho. Toda as possibilidades de uma vida recém-começada, mas com maturidade para desfrutá-la.
Eu sabia que iria sentir muita falta disso tudo, mas ontem isso me tomou de sobressalto, como uma experiência concreta, não apenas a lembrança idealizada. Como se eu pudesse ter voltado de fato, por um breve instante, para depois perceber que estava, na verdade, na minha cama brasileira, dormindo só.